Modalidades da marcha

20/11/2011 19:11


Sendo pessoas de famílias de criadores do Sul de Minas, que sempre criaram e montavam somente cavalos marchadores, podemos dizer que “nascemos os dentes” montados a cavalo, motivo pelo qual desde cedo nos acostumamos aos termos e expressões próprios dela.
Era comum ouvir as expressões marcha batida, marcha picada, viajeiro, passeiro e outras, sendo que até bem pouco tempo não eram de nosso conhecimento os termos marcha de centro ou intermediária.
Ouvia-se, também, e sempre com algum desprezo, referências ao trote.
Nas nossas famílias todos eram criadores de cavalos para uso próprio, tínhamos as criações de gado e agricultura como atividades principais, e os cavalos apareciam para suprir as necessidades e o gosto de cada um.
Era comum, ao ser apresentado a algum animal, ouvir a referência de que aquele andamento não era marcha batida nem picada e podemos imaginar que seria essa marcha que hoje denominamos de intermediária ou de centro.
Assim, concordamos plenamente com a explicação coincidente dada em Varginha pelo árbitro Márcio Meireles Leite. Há, como é natural, explicações e entendimentos um pouco diferentes para a marcha intermediária, o que motiva a necessidade de estudos para se chegar a um consenso. O importante de tudo isso, é que estamos trabalhando com marcha e a marcha intermediária é a mais genuína das modalidades dela.
Estando a marcha intermediária mais ou menos eqüidistante da picada e da batida e, portanto, entre as três, a mais afastada quer do trote quer da andadura, ela é a mais fácil de ser trabalhada.
A partir da marcha intermediária, o criador conduz a sua tropa para um andamento mais batido ou mais picado, segundo a sua própria vontade, ou ainda, querendo, pode conservá-la. Tudo isso observadas as leis da genética e ponderando a origem da tropa.
Imaginemos um criador inteligente, e que esteja iniciando seu trabalho de criação, não importando a sua preferência pela marcha batida ou picada. Para cortar caminho e ter assegurada a manutenção de toda a tropa em andamento dentro do Padrão Racial, o certo seria iniciar com reprodutores e matrizes de marcha intermediária e, num segundo momento, optar pela marcha de sua preferência.
E mesmo depois, ao longo do tempo, se notar que o andamento médio da tropa está se desviando de seus objetivos iniciais, basta retornar com reprodutor homozigoto de marcha intermediária. Há que considerar, ainda, o expressivo número de criadores, cavaleiros e usuários do Marchador que declaram sua nítida preferência pela marcha intermediária.
Muitos criadores de marcha picada reconhecem que suas éguas cruzadas com garanhões também de marcha picada dão muitas vezes produtos excessivamente lateralizados, motivo pelo qual optam por cruzá-las com reprodutores de marcha intermediária.
Por tudo isso, e muito mais, vemos com otimismo a iniciativa da Associação, através de seu atual presidente e Diretoria, de oficializar o julgamento de marcha intermediária. Antes, porém, do início de tais julgamentos, é necessário, primeiro, um trabalho de consenso sobre o que é, de fato, a Marcha Intermediária, onde ela começa e até onde ela vai. Depois outro trabalho, agora didático, no sentido de defini-la, delimitá-la minuciosamente e por fim divulgá-la e fixá-la na mente das pessoas.
Não pretendemos aqui ensinar nada a ninguém, pois estamos aprendendo juntos. A união e colaboração de criadores, técnicos e árbitros são indispensáveis para o sucesso de seu julgamento e de todo esse empreendimento.
Lembramos que todos somos responsáveis. Marcha, seja ela Batida, Picada ou Intermediária, é o que está escrito no Padrão Racial. O que as diferencia são os tempos de apoio.
E podemos dizer mais: há inúmeras modalidades de marcha e o que manda é o gosto de cada um. Desde que dentro do Padrão, cada um cria, monta, vende e compra o que quer. Todos temos as nossas preferências e quase sempre procuramos justificá-las aos outros, mas reconhecemos que o certo é respeitar as opções de cada um.
Outro ponto fundamental e positivo da Marcha intermediária, é que ela vai trazer o retorno da velha e boa equitação do cavalo marchador. Adeus “cavalo apoiado”. Um cavalo legítimo de Marcha Intermediária, se for apoiado, dará Marcha Picada e um cavalo diagonal jamais dará Marcha Intermediária. O bom cavaleiro aprimora o andamento natural do cavalo; jamais o modifica. O que ensina cavalo a marchar são seus pais.

Texto de Bruno Teixeira de Andrade, Arnaldo Bottrel Reis e Márcio Meirelles Leite
Publicado na Revista Mangalarga Marchador
Ano 20 – Nº 65 – Junho de 2009